Correspondente de F40 assiste à pré-estréia de DO COMEÇO AO FIM, filme mais esperado do ano pela Comunidade LGBT brasileira e escreve resenha EXCLUSIVA para o blog:1
"Tentativa de fábula sobre o amor resulta em filme vazio
“Do Começo Ao Fim” talvez seja o filme brasileiro mais aguardado neste ano, muito se deve ao fato da polêmica que envolveu um vídeo com trechos da obra que caiu na Internet se tornando fenômeno do Youtube, no que não se tem certeza se foi uma ação de marketing ou, como defendido pela equipe, “algo que vazou”, seja como for, o resultado foi uma grande expectativa em torno do filme cuja polêmica temática reúne incesto e homossexualidade. O longa foi o mais noticiado em sites especializados em cultura e comportamento LGBT, afinal rara são as vezes em que tal comunidade se vê representada de forma não estereotipada nos veículos brasileiros; por outro lado seu diretor Aluízio Abranches defende seu filme como uma história de amor, não um filme gay (máxima que já virou clichê entre muitos realizadores de películas com histórias homoafetivas). Normalmente eu concordaria com a opção por este olhar não segmentado, mas este talvez tenha sido um dos principais problemas na realização do filme.
A história nos apresenta dois irmãos que se tornam próximos demais desde a infância até a concretização de sua relação incestuosa na juventude, acontece que eles não enfrentam nenhum tipo de repreensão, crítica ou preconceito do mundo que os cerca, todos sem exceção acham natural a dobradinha incesto e homossexualidade, o roteirista e diretor parece querer construir uma fábula onde o amor não triunfa, mas simplesmente “é”, afinal não encontra resistência. Um dos irmãos à certa altura, quando já moram como casal na casa da família, diz “para entender o nosso amor ia ser preciso virar o mundo de cabeça para baixo”, pois parece que o filme se passa já neste mundo de cabeça para baixo onde todos entendem o amor deles. O resultado é um roteiro oco sem qualquer tipo de conflito, e o que poderia ser um filme de reflexão sobre tabus pertinentes vira apenas um comercial de margarina.
A primeira parte do filme mostrando os meninos ainda crianças é um pouco superior à que vem em seguida, principalmente porque existe algum roteiro até então, com diálogos que são, ao menos, fluidos em geral. Os atores mirins Gabriel Kaufmman e Lucas Cotrim emprestam espontaneidade aos personagens, em especial o segundo que concebe com sensibilidade e sem exageros o irmão mais velho. É nesta parte do filme também que temos a presença relevante de outros personagens como os corretamente interpretados por Fábio Assunção (pai do filho mais novo e atual marido da mãe dos meninos) e de Jean Pierre Noher (o pai argentino do primeiro filho), Louise Cardoso em pequeno papel está muito bem, e é Julia Lemmertz como a mãe que apresenta o melhor trabalho do filme, mesmo com uma personagem que apresenta uma postura inverossímil e quase passiva da mãe que identifica e não inibe a paixão dos irmãos, a atriz consegue dimensionar e humanizar sua figura, alcançando alguma emoção – e única do filme. Também é nesta primeira metade do filme que vislumbramos uma condução delicada do diretor, que logo se perderá.
Com uma passagem de tempo de quinze anos a segunda parte do filme lembra um grande videoclipe com imagens dos dois belos atores Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcellos se acariciando (e muitas destas cenas parecem meramente voyeurísticas e nada acrescentam), aqui os diálogos praticamente somem e o irritante excesso de música incidental que já havia na primeira parte se agrava bastante. As cenas de sexo entre os dois poderiam ser pelo menos excitantes, mas não são, resultam assépticas como a própria história, e a mesma assepsia é evidenciada na fotografia que deixa tudo ainda mais clean (não só no sentido de claro e esbranquiçado, mas principalmente de vazio). O único conflito apontado no filme acontece quando um dos irmãos vai para a Rússia treinar e o outro sofre a solidão e alguma perdição nos braços de uma mulher, mas logo isso é suavizado e esvaziado de forma assustadoramente rápida e voltamos ao clima “felizes para sempre” que o filme traz. Os atores protagonistas não atingem emoção, embora o roteiro e seus personagens pouco pudessem ser explorados, resultando em figuras bastante mornas.
Não duvido que existam boas intenções por trás de “Do Começo Ao Fim” e a produção apresenta um bom nível, mas tudo isso se perde pelo roteiro extremamente frágil que não consegue nem ser uma boa fabula utópica, e a direção que não conseguiu acrescentar brilho nem às atuações (com a justa exceção de Julia Lemmertz) nem às cenas.
A curiosidade se encarregará de levar um bom público às salas em que o filme for exibido, no entanto é uma pena que possivelmente o filme frustre, principalmente, o público gay que criou e valorizou toda expectativa em torno de seu lançamento, e que certamente não sentirá suas vidas representadas, sua luta por aceitação, os enfrentamentos contra os preconceitos da sociedade ou mesmo as peculiaridades de um relacionamento homossexual, nada disso é discutido e faz parecer muito fácil e maravilhosa a vida de um casal de dois homens (e nem precisa comentar o tabu adicional do incesto) num país ainda bastante homofóbico como o nosso, onde o preconceito em geral começa na família.
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“Do Começo Ao Fim” resulta um filme vazio.
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L.M."
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Corre nos bastidores do Festival onde o filme teve sessão de que a maior parte do público LGBT - e dos jornalistas - saiu decepcionadíssima com o filme. É esperar chegar no cinema mais próximo para conferirmos.
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Posted by Equipe Farme 40º
A história nos apresenta dois irmãos que se tornam próximos demais desde a infância até a concretização de sua relação incestuosa na juventude, acontece que eles não enfrentam nenhum tipo de repreensão, crítica ou preconceito do mundo que os cerca, todos sem exceção acham natural a dobradinha incesto e homossexualidade, o roteirista e diretor parece querer construir uma fábula onde o amor não triunfa, mas simplesmente “é”, afinal não encontra resistência. Um dos irmãos à certa altura, quando já moram como casal na casa da família, diz “para entender o nosso amor ia ser preciso virar o mundo de cabeça para baixo”, pois parece que o filme se passa já neste mundo de cabeça para baixo onde todos entendem o amor deles. O resultado é um roteiro oco sem qualquer tipo de conflito, e o que poderia ser um filme de reflexão sobre tabus pertinentes vira apenas um comercial de margarina.
A primeira parte do filme mostrando os meninos ainda crianças é um pouco superior à que vem em seguida, principalmente porque existe algum roteiro até então, com diálogos que são, ao menos, fluidos em geral. Os atores mirins Gabriel Kaufmman e Lucas Cotrim emprestam espontaneidade aos personagens, em especial o segundo que concebe com sensibilidade e sem exageros o irmão mais velho. É nesta parte do filme também que temos a presença relevante de outros personagens como os corretamente interpretados por Fábio Assunção (pai do filho mais novo e atual marido da mãe dos meninos) e de Jean Pierre Noher (o pai argentino do primeiro filho), Louise Cardoso em pequeno papel está muito bem, e é Julia Lemmertz como a mãe que apresenta o melhor trabalho do filme, mesmo com uma personagem que apresenta uma postura inverossímil e quase passiva da mãe que identifica e não inibe a paixão dos irmãos, a atriz consegue dimensionar e humanizar sua figura, alcançando alguma emoção – e única do filme. Também é nesta primeira metade do filme que vislumbramos uma condução delicada do diretor, que logo se perderá.Com uma passagem de tempo de quinze anos a segunda parte do filme lembra um grande videoclipe com imagens dos dois belos atores Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcellos se acariciando (e muitas destas cenas parecem meramente voyeurísticas e nada acrescentam), aqui os diálogos praticamente somem e o irritante excesso de música incidental que já havia na primeira parte se agrava bastante. As cenas de sexo entre os dois poderiam ser pelo menos excitantes, mas não são, resultam assépticas como a própria história, e a mesma assepsia é evidenciada na fotografia que deixa tudo ainda mais clean (não só no sentido de claro e esbranquiçado, mas principalmente de vazio). O único conflito apontado no filme acontece quando um dos irmãos vai para a Rússia treinar e o outro sofre a solidão e alguma perdição nos braços de uma mulher, mas logo isso é suavizado e esvaziado de forma assustadoramente rápida e voltamos ao clima “felizes para sempre” que o filme traz. Os atores protagonistas não atingem emoção, embora o roteiro e seus personagens pouco pudessem ser explorados, resultando em figuras bastante mornas.
Não duvido que existam boas intenções por trás de “Do Começo Ao Fim” e a produção apresenta um bom nível, mas tudo isso se perde pelo roteiro extremamente frágil que não consegue nem ser uma boa fabula utópica, e a direção que não conseguiu acrescentar brilho nem às atuações (com a justa exceção de Julia Lemmertz) nem às cenas.
A curiosidade se encarregará de levar um bom público às salas em que o filme for exibido, no entanto é uma pena que possivelmente o filme frustre, principalmente, o público gay que criou e valorizou toda expectativa em torno de seu lançamento, e que certamente não sentirá suas vidas representadas, sua luta por aceitação, os enfrentamentos contra os preconceitos da sociedade ou mesmo as peculiaridades de um relacionamento homossexual, nada disso é discutido e faz parecer muito fácil e maravilhosa a vida de um casal de dois homens (e nem precisa comentar o tabu adicional do incesto) num país ainda bastante homofóbico como o nosso, onde o preconceito em geral começa na família.
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“Do Começo Ao Fim” resulta um filme vazio.
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L.M."
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Corre nos bastidores do Festival onde o filme teve sessão de que a maior parte do público LGBT - e dos jornalistas - saiu decepcionadíssima com o filme. É esperar chegar no cinema mais próximo para conferirmos.
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Posted by Equipe Farme 40º






12 comentários:
CHOCADO!
Eu sabia! Quando começa com muito estardalhaço...
Issó é o q dá! Todo mundo pintou o filme como sendo um filme gay, quando o próprio diretor do filme fez questão de dizer q não era. Aí, as bichas todas ficaram divulgando uma coisa q nem tava pronta e ainda por cima falava de incesto! No final o filme é uma droga e os evangélicos q estão votando contra a gente no senado ainda vão falar q a gente defende incesto! Uma coisa é defender a causa e os direitos gays outra é incesto!
Se todas as bees curiosas forem ao cinema, eles tem sucesso de público garantido o q é um pena! Perderam a oportunidaded de falar sobre a homossexualidade para o grande público! Pena
Show a resenha! Parabéns!
Mesmo assim vou esperar para assistir. A resenha tem poucos detalhes técnicos e o ponto de vista do autor da resenha é ligado somente ao público gay. Como se nas salas de cinema só houvessem gays. E por que o filme teria que mostrar o preconceito, a luta por aceitação e esse blablabla todo? Isso as vezes enche o saco. É a mesma coisa com negros. Todos os negros precisam sofrer preconceito? Não é assim não. Vocês falam tanto em não esteriotipar uma personagem gay, mas acabam esteriotipando os filmes. "Filmes gays têm que ter luta e preconceito, filmes com negros têm que ter racismo, filme brasileiro tem que ter favela, drogas, presídio..." Ah... isso tudo cansa também. Pra mim isso é resenha de um decepcionado. Esperava uma coisa e viu outra. Crítico de cinema tem que se abster disso. É necessário assistir o filme tentando analisar a mensagem que ele quer passar e sua essência. Através disso é que podemos dizer se o filme foi bem sucedido ou não e não porque o filme não mostrou o que eu queria ver. Li outra resenha totalmente diferente dessa. Parece mostrar a verdadeira essência do filme e tem mais detalhes técnicos. Quem quiser ler, me envie um e-mail (rvinacio@gmail.com).
Ah... Adorei a sigla F40!... Ótima!
Assisti a pré-estréia que rolou hoje, no Estação Vivo Gávea... L.M. foi PERFEITO em sua análise! E, sim Rafa, só tinham gays na sala... Rs.
O filme, infelizmente, é realmente vazio...
Mas valeu SIM a intenção! Só a intenção...
O vazio é relativo. Um FEIXE DE LUZ pode não significar nada p/ uns e pode ser a maior recordação de uma vida p/ outros. A milhares de anos produzimos, assistimos e reproduzimos a relação heterossexual no cinema, na fotografia, na música etc. A ansiedade da comunidade GLSBTT em ser representada na mídia e na arte é tamanha, que mesmo o melhor texto, o melhor diretor, os melhores atores, a melhor equipe técnica etc etc seriam incapazes de satisfazer a heterogeneidade do público em questão.
E penso se ainda devemos levantar a questão da luta pela diferença ao invés de celebrar a liberdade e chocar com a beleza da estética.
A realidade de muitos, pricipalmente de jovens e adolescentes de hj das grandes capitais não é de enfrentamentos e preconceitos.
Maior ou menor, um público foi representado nesse filme.
E pensando "arte pela arte", qual a razão da representar algo ou alguém? Quando era criança fui ao cinema com minha empregada assistir um filme da Xuxa... não me senti representado por duendes, gnomes e fadas, mas mesmo assim voltei maravilhado p/ casa.
Talvez esse filme seja o primeiro passo p/ um olhar mais natural e coerente p/ o amor, p/ a relação homoafetiva, p/ o incesto, p/ a diferença. E se não for.... será um apanhado de FEIXES DE LUZES com diferentes importâncias.
O vazio é subjetivo.
Adoro debates! Acho tão rico! E tenho adorado a forma respeitosa e interessante que tem rolado por aqui (Tb, nosso seguidores são os melhores! Rs) . E talvez, justamente por provocar o debate, o filme tenha cumprido seu papel. Concordo com o Daniel, acho que o filme, como qualquer outro, chegará de maneiras diferentes a cada um que o assistir. Mas assisti o filme e já posso dizer q independente do olhar q se tenha, gostando ou não, DO COMEÇO AO FIM não é passo algum, nem para frente e nem para trás, até pq não discutir um tema não é naturalizá-lo, é simplesmente não discuti-lo. E talvez essa tenha sido a opção artística de Abranches, e como artista, na arte, se pode tudo! Assistam e tirem suas próprias conclusões! Não fui para assistir uma bandeira, mas um filme e por isso não gostei do filme como filme. Quem assistiu em SP ou no Rio e quiser trocar impressões, tem minha opinião pessoal no blog (www.caesarmouraoficial.com). Vou adorar papear mais. Abraços em todos!
Gentemmmmmmmm... O Caesar realmente é incrível... Leia a opinião pessoal no site dele... Incrível! Isso sim é saber escrever!
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